COMO O DESIGN THINKING AJUDA NA SOLUÇÃO DE DESAFIOS?

A capacidade de inovar e encontrar soluções criativas para problemas comuns é um aspecto determinante na trajetória de pessoas e de empresas.

Antes de seguir o texto, pense por um instante em alguém ou em uma marca que você admira. E, em seguida, no porquê você nutre essa admiração!

Não posso ler seu pensamento, mas acredito que veio a sua mente aquela pessoa ou empresa que tem como fortes características a criatividade, a inovação e o pensamento disruptivo. Estou certa?

Esse meu palpite é porque cargos que envolvem tomadas de decisão exigem perfis com raciocínio crítico e soluções criativas.

Por isso, hoje, eu vou trazer algumas reflexões sobre uma das metodologias mais assertivas para desenvolver essas habilidades, o design thinking.

O termo se refere a um processo que possibilita a organização de ideias de modo a estimular tomadas de decisão e busca por conhecimento de modo coletivo.

Apesar de ser uma metodologia cada vez mais aplicada (e desejada) pelas organizações, o design thinking não tem uma fórmula específica para implantação.

Em vez de impor um método pronto, essa forma de abordagem cria condições para maximizar a geração de insights e a aplicação prática deles. Tudo de forma coletiva e colaborativa, de modo a reunir o máximo de perspectivas diferentes.

Afinal, nós não estamos e não fazemos nada sozinhos!

Somos seres sociais. Crescemos e nos desenvolvemos em conjunto. Portanto, a criatividade é coletiva. E isso a torna muito mais rica e completa, unindo mentes criativas e diferentes camadas de desenvolvimento e conhecimento.

De onde surge o “pensamento de design”?

Design é o processo que ocorre a partir de uma intenção, seguida de uma jornada cognitiva e, por fim, da realização. Os principais autores definem design como tornar tangível uma intenção de transformação, ou seja, como a habilidade de materializar pensamentos.

Em resumo, design é partir de algo que não existe para concretizar algo que ainda vai existir.

A metodologia do design thinking faz parte de um enorme movimento intelectual do século 20 para entender processos mentais diante de problemas bem definidos, mal definidos ou incômodos.

A psicologia evolutiva definiu diferentes processos mentais: analítico, criativo, crítico, interrogativo, intuitivo, lateral, positivo, racional, realista, sintético, entre muitos outros.

Diversos pesquisadores defendem que todos nós somos designers espontâneos, capazes de imaginar, visualizar, sonhar, considerar, refletir, deliberar, entender, compreender e descobrir coisas novas.

Por isso o termo design thinking vem sendo compreendido com uma prática do design que conversa intimamente com a prática dos negócios em um processo interativo de troca de conteúdo.
Design thinking é estimular a prática de um pensamento aberto ao exame minucioso que escuta todos os interessados para atingir um público mais amplo e consciente. Isto é, utilizar a criatividade colaborativa para confeccionar soluções plausíveis e abrangentes. Não há certo ou errado. Mas sim possibilidades.

A ideia fundamental do design thinking é oferecer uma estrutura metodológica capaz de desconstruir e reconstruir, resolver e solucionar, experimentar e prototipar questões e problemas. É, de fato, uma estratégia para resolver problemas difíceis centrada nas necessidades humanas.

Os primeiros textos acadêmicos sobre a importância específica do design thinking começaram a aparecer em 2004 como um processo de resolução de problemas da área administrativa.

Isso mostra que apenas pouco mais de 20 anos atrás começamos a modificar a visão de negócios de um pensamento incremental (essencialmente lógico e linear) para um campo exponencial, mais amplo e não-linear.

E por que design thinking efetivamente soluciona desafios? A resposta é simples e reflete a realidade em que vivemos hoje. Design Thinking é uma abordagem centrada no ser humano e na cultura da inovação, com foco no pensamento multidisciplinar e na remoção de preconceitos.

A ciência/lógica investiga formas existentes. O design inicia novas formas.

A criatividade precisa ser estimulada

A ideia do Design Thinking aplicada aos negócios é atribuída a dois profissionais do Vale do Silício: David Kelley e Tim Brown, professores da Universidade de Stanford.

Neste vídeo do TED, Tim explica muito bem como o design tem um papel maior a desempenhar do que apenas criar objetos. Partindo do exemplo do pensador de design do século 19, Isambard Kingdom Brunel, Brown mostra exatamente a aplicação do “pensamento de design”, colaborativo e participativo, em diferentes contextos.

Uma das experiências narradas por ele no vídeo mostra a efetividade da metodologia numa área que conheço muito bem, a enfermagem. Ele mostra como a aplicabilidade de um pensamento não-linear que busca soluções a partir do coletivo pode beneficiar profissionais e pacientes. Vale a pena a reflexão!

Se você acha que desenvolver esse pensamento é algo complexo, vou te lembrar de algo bem essencial: somos seres criativos. Literalmente, a criatividade é inata a nós, seres humanos.

Somos capazes de criar, produzir e inventar coisas novas, ou transformar e melhorar as antigas.

Mas aí você pode estar se perguntando: então por que é preciso desenvolver uma metodologia que estimula a criatividade se ela já está em nós?

Te explico: uma pesquisa feita pelos cientistas George Land e Beth Jarman aplicou testes em 1.600 crianças nos Estados Unidos. Na primeira leva de testes, 98% das crianças, com idades entre 3 e 5 anos, apresentaram alta criatividade.

O mesmo grupo foi testado aos 10 anos e esse percentual caiu para 30%.

Quando alcançaram os 15 anos, apenas 12% mantiveram um alto índice de criatividade.

Mais tarde, um experimento similar foi aplicado em mais 200 mil adultos. Somente 2% se mostraram altamente criativos.

Conclusão? Com o passar dos anos, as pessoas “aprendem” a não serem criativas. Medo e bloqueios mentais criados ao longo da vida acabam minando a criatividade.

E é por isso que precisamos, sim, praticar o design thinking e recuperar essa habilidade tão importante nos negócios.

Mais do que diferencial, criatividade é fundamental

A criatividade tem ocupado espaço de destaque no mercado, principalmente porque se conecta à capacidade do indivíduo de inovar e, em um contexto como o atual, é na inovação que estão depositadas as esperanças de sobrevivência dos negócios.

O LinkdIn realizou uma pesquisa, em 2020, que destacou a criatividade como a habilidade humana mais necessitada pelas empresas.

Criatividade é uma das soft skills (habilidades interpessoais). As mais desejadas, além da criatividade, são: Resolução de problemas; Liderança; Colaboração; e Adaptabilidade.

Percebe como todas se relacionam com o pensamento de design? A habilidade de trabalhar em conjunto e buscar soluções coletivas foi o que fez com que nossa espécie sobrevivesse.

A metodologia do design thinking segue três atributos fundamentais:

empatia (conhecer dos desejos e dores do público-alvo);

colaboração (visão multidisciplinar e sistêmica para cocriar);

experimentação (criatividade para construir possibilidades).

A presença da criatividade transdisciplinar nas empresas é essencial para criar novas soluções, novos projetos e manter a inovação nas empresas, como destaca o professor Dr. Luís Humberto Villwock nessa entrevista ao blog Soft Design.

Conforme Luís Humberto, a única estratégia que as empresas podem adotar para sobreviver é essa criatividade coletiva. Colocar assuntos em mesas de discussão e permitir que pessoas diferentes – inclusive de fora das organizações – possam trazer suas leituras é de uma riqueza enorme.

Design Thinking: as etapas do processo

Conhecer e adotar a metodologia do design thinking é uma tarefa para quem quer se manter relevante, inovador e competente para solucionar problemas.

Rique Nitzsche, referência na área de Design Thinking, explica que esse pensamento é composto por seis fases:

Entendimento > Observação > Definição > Criação > Prototipagem > Teste.

Abaixo, um pouco mais sobre cada etapa:

Entendimento + observação

É a etapa primordial do design thinking, na qual se faz uma imersão no assunto em pauta (produto, serviço, solução desejados). Para funcionar, é preciso não fazer deduções. Ou seja, livre de preconceitos ou julgamentos, comece por perguntas básicas. O importante é ouvir tudo o que for dito e observar com atenção também para captar mensagens implícitas. Não deixe dúvidas, se não entendeu algo, pergunte novamente, experimente outra abordagem.

Definição

É o momento de interpretar todas as informações obtidas e processar tudo o que foi dito e visto. Costuma ser um processo trabalhoso e demorado, mas é essencial para identificar o problema/desejo em questão a fim de desenvolver soluções inteligentes. Essa etapa vai definir toda a rota a ser seguida no desenvolvimento do projeto.

Criação/Ideação

Depois de realmente entender a necessidade/desejo, vem o brainstorming com a equipe envolvida no projeto para sintetizar tudo e vislumbrar as possibilidades. Não se trata de encontrar a solução ideal/definitiva, mas sim de gerar o máximo de soluções possíveis. É preciso permitir que as ideias fluam sem excesso de análises. É preciso, no entanto, gerar resultados. Assim, o ideal é estabelecer alguns limites, como duração do encontro e não perder o foco no objetivo.

Prototipagem

Aqui acontece a execução do projeto em si. É o momento de desenvolver um protótipo, de transformar as ideias em prática. Lembrando que não necessariamente precisa ser um produto. Pode ser qualquer coisa com a qual o usuário consiga interagir. O importante é que a ideia assuma uma forma palpável para que as possibilidades possam ser analisadas ou testadas internamente.

Validação/Teste

É o momento de realizar testes externos. Nesta fase, as soluções vão passar por um refinamento. Não há respostas limitadas no Design Thinking, já que a metodologia trabalha ativamente na remoção de preconceitos. A validação serve, inclusive, para trazer à tona informações inéditas e interessantes.

Cabe a ressalva: essas fases são um processo não linear, ou seja, você não necessariamente precisa seguir uma ordem rígida e preestabelecida. Tudo pode ser realizado em paralelo ou em estágios distintos. Cada etapa também pode ser repetida livremente ou revisitada, se necessário.

As metodologias relacionadas ao design thinking tem o objetivo de ajudar pessoas, gestores e empresas a se tornarem mais sensíveis às necessidades do usuário. E por isso mesmo a prática precisa de equipes interdisciplinares (ou transdisciplinares) e colaborativas.