‘Pulmão de pipoca’ e ‘EVALI’: conheça os perigos dos cigarros eletrônicos

Dispositivos têm potencial de dependência até três vezes superior ao cigarro comum; pneumologista da Hapvida alerta para os riscos de lesões irreversíveis

O uso de cigarros eletrônicos, popularmente conhecidos como vapes, tem provocado um alerta na comunidade médica devido ao surgimento de doenças graves e, em muitos casos, irreversíveis. Entre as principais preocupações está a bronquiolite obliterante, apelidada de “pulmão de pipoca”, uma condição inflamatória que obstrui as pequenas vias aéreas e pode evoluir para a fibrose pulmonar.

Diferente do cigarro convencional, o dispositivo eletrônico utiliza substâncias aromatizantes e veículos químicos que, ao serem aquecidos e inalados, causam lesão direta no tecido pulmonar. De acordo com o pneumologista da Hapvida, Renato Calil, o termo “pulmão de pipoca” surgiu originalmente em fábricas de pipoca de micro-ondas, onde funcionários inalavam altas concentrações de diacetil, substância usada para conferir sabor de manteiga.

“A correlação do ‘pulmão de pipoca’ com o vape, cigarro eletrônico, é porque esse aspecto radiológico é de uma bronquiolite obliterante. É uma doença que é inflamatória, obstrutiva, pode causar fibrose, que é quando o pulmão fica duro. E o ‘pulmão de pipoca’ tem o mesmo aspecto”, explica o médico.

Composição tóxica

Além do diacetil, os líquidos dos vapes contêm substâncias como formaldeído, amônia e metais pesados provenientes da bateria, como níquel e cádmio, que possuem potencial cancerígeno. O pneumologista ressalta que o potencial de dependência é significativamente superior ao do tabaco tradicional.

“A nicotina do cigarro eletrônico atinge a corrente sanguínea e vai parar no cérebro em menos de 20 segundos. Aí ela vicia até três vezes mais”, afirma o especialista.

Risco

Outro quadro grave associado ao dispositivo é a ‘EVALI’ (lesão pulmonar associada ao uso de produtos de cigarro eletrônico ou vaping). A condição ganhou destaque em 2019, quando surtos nos Estados Unidos resultaram em milhares de internações e dezenas de mortes. A causa principal foi a associação do THC (princípio ativo da maconha) com o acetato de vitamina E, um veículo oleoso que provoca pneumonia química.

No Brasil, casos da doença já foram confirmados, inclusive com registros de óbitos. O médico destaca que, em cenários extremos e raros, a gravidade das lesões pode levar o paciente à fila de transplante de pulmão.

Prevenção e tratamento

O design atrativo dos aparelhos e a ausência do odor característico do tabaco facilitam o acesso e o uso por adolescentes e adultos jovens. Para o especialista, a principal medida de saúde pública é a prevenção primária.

“A primeira coisa é não experimentar, como medida preventiva. Caso a pessoa já tiver o uso, e se estiver dependente da nicotina, ela tem que procurar um profissional de saúde, um pneumologista ou um psiquiatra para fazer as medidas para a tentativa de suspensão. O tratamento para a dependência da nicotina é muito próximo do cigarro convencional”, orienta Calil.

O tratamento envolve o uso de repositores de nicotina e, em alguns casos, medicamentos específicos para cessação do tabagismo, sempre com acompanhamento profissional para reverter ou mitigar os danos à capacidade pulmonar.